Eu sou a Ana, e quero partilhar contigo como o voluntariado me ajudou a transformar a dor em propósito após a perda de um filho.

A vida trouxe-me desafios profundos e transformadores, e aprendi a encarar as adversidades como oportunidades de crescimento e superação. A maternidade, em particular, foi uma dessas experiências que moldou quem sou hoje. Tive três filhos, cada um com uma história única e especial, e guardo-os a todos num lugar muito especial no meu coração. O primeiro, infelizmente, partiu ainda durante a vida intrauterina devido a uma mola hidatiforme parcial. Apesar de nunca o ter conhecido, tive de me despedir… talvez apenas um “até já”. Ele vive em mim, no meu coração. O terceiro, o Jónatas, nasceu em 2012 e é um ser humano extraordinário. A sua capacidade de adaptação e resiliência é notável, e ele é uma fonte constante de alegria e orgulho na minha vida.
Mas hoje quero falar-te principalmente do meu segundo filho, Gabriel, que nasceu em 2006. O Gabriel foi, sem dúvida, a aprendizagem mais profunda e desafiante da minha vida. Ele nasceu com uma condição neurológica severa, nunca plenamente diagnosticada pela medicina, que lhe trouxe muitos condicionalismos e limitações funcionais. Fiquemo-nos, portanto, pela categoria generalizada de encefalopatia com um grau de incapacidade de 95%. As suas dificuldades eram inúmeras e manifestavam-se em áreas como a fala, a mobilidade, a alimentação, a perceção e compreensão sensorial, e em muitas, muitas, crises convulsivas, quase diárias.

Eu e o meu marido tornámo-nos seus cuidadores e terapeutas. Durante mais de três anos, implementámos um programa diário de reabilitação e reorganização neurológica, que durava entre 8 e 12 horas por dia, sem pausas, férias ou feriados. Seguimos o Método Doman e fomos acompanhados pela equipa do Instituto Véras, do Rio de Janeiro, que visitava Portugal a cada seis meses.
O Gabriel, um verdadeiro guerreiro, estava a progredir consideravelmente, escapando a um destino de vida vegetativa. No entanto, a doença acabou por levar a melhor. Com quase quatro anos de idade, no dia 24 de dezembro de 2009, o Gabriel foi hospitalizado de urgência devido a uma paragem cardiorrespiratória. Na madrugada de 26 de dezembro, despedimo-nos dele…com um “até já”.

Este luto foi diferente e exigiu mais de mim em termos emocionais. Uma das formas que encontrei para lidar com a dor foi honrar a memória do Gabriel, e toda a sabedoria e aprendizagem que nos proporcionou, através do voluntariado. Durante cerca de seis anos, colaborei com o Instituto Véras, apoiando famílias com crianças com lesões neurológicas, síndromes genéticas ou metabólicas, que vinham de várias partes de Portugal, Espanha e África. Eu e o meu marido prestávamos apoio logístico e operacional à equipa técnica e às famílias.
Esses anos não só me proporcionaram conhecimento e experiência na área da Reabilitação e Reorganização Neurológica, como também me deram um sentido de propósito e continuidade de vida… uma vida sem o Gabriel… uma vida sem uma parte de mim. Ajudaram-me a compreender que a sua breve e fugaz passagem por este mundo não foi em vão, teve um propósito e uma mensagem que devo honrar!
“O Gabriel vive em mim, profundamente no meu coração, e sei que, graças a ele, me tornei numa pessoa maior e melhor.”
Ana Sousa | Mind, Emotion & Soul Specialist